Revista Tesseract

ISSN 1519-2415

Edição Especial 2004

NOELIZA LIMA

A auto-estima é um assunto que demanda estudos e pesquisas, visto que nas várias práticas, e não só da psicologia, observam-se que pessoas com baixa auto-estima tendem a desenvolver mais facilmente transtornos psicológicos e físicos. Esta relação já é bem definida por especialistas na área psicossomática. Da mesma forma, ao desenvolver sua auto-estima, esta mesma pessoa adquire maiores possibilidades de atuação em qualquer área, ampliando sobremaneira seu círculo de relações.

A discriminação é fator preponderante no desenvolvimento do auto conceito. Em nossa sociedade, pessoas diferentes do usual são isoladas, e isto provoca ou reforça uma visão pobre de si mesmo.

Um sistema, ao privilegiar determinada raça, posição econômica, idade, aparência, sexo e gênero, etc., estabelece parâmetros que vão contra os direitos humanos e a possibilidade de crescimento individual e social.

Este artigo pretende enfocar a auto-estima como um viés do gênero, assim como sua relação com o roteiro de vida da mulher. Ao enfocar as relações de gênero, pretende-se também enfatizar a necessidade da psicologia emprestar seu olhar a esta questão.

Ao estabelecer a igualdade na diversidade, por coerência, os substantivos e adjetivos que estão no masculino – independem de sexo e/ou gênero. O estudo do caso foi feito acerca de um casal heterossexual, (assim como a música infantil).

Segundo Flax (1995), a relação entre homem e mulher é assimétrica. A questão da assimetria remete à questão do gênero, que significa a diferença de justiça, direitos e principalmente qualificação da mulher em relação ao homem, diferença esta criada a partir da instalação do patriarcado e mantida pela sociedade. Podemos dizer que repete a relação dialética de Hegel (Coreth, 1973), em que um é o Senhor e o outro o Escravo. Um não reconhece o outro em sua forma pessoal de sabedoria, em sua forma de ser no mundo.

Para se entender gênero é necessário que se distinga sexo de gênero.

Sexo é o componente genético anatômico e funcional, que estabelece a diferença entre homem e mulher. Gênero é a configuração histórica, social e política que distingue o homem da mulher, e a forma como esse contexto é elaborado psicologicamente pelas pessoas. Refere-se aos papéis instituídos socialmente para o homem e para a mulher e por eles desenvolvidos ao longo da vida.

Quando discutimos a função reprodutora da mulher, estamos discutindo tanto sexo (porque se refere às possibilidades fisiológicas do sexo feminino), como gênero (porque se refere ao papel de mãe estipulado pela cultura e sociedade, e a forma como esta mãe lida com este conceito). Este é o discurso concreto do gênero, que se reveste de um significado de reparação e reconstrução da identidade feminina. O discurso psíquico ou latente (encoberto) é de que a mulher propicia o aumento de poder do homem, ao abdicar de suas possibilidades enquanto ser que se constrói. Considera o homem o depositário de suas demandas, o herói de seus sonhos, o cavaleiro andante que irá resgatá-la de uma vida passiva e sem sentido (Holanda, 1992). Coloca todas as possibilidades de reforçamento na figura masculina. E mesmo que tenha outras atividades não as faz com a mesma paixão com que se dedica ao homem. A necessidade de concretização do sonho amoroso pode então levar a mulher a se esquecer de si mesma.
Exemplo: trecho de uma reunião de grupo de reflexão para mulheres. Os nomes são fantasia.

“Rosa diz que não suporta mulheres que gastam com compra de roupas. Ao ser questionada por Mimosa, justifica dizendo que sua opção política é contrária ao capitalismo, cujo principal designativo é o consumismo exacerbado.”

Trata-se aparentemente de uma questão de valores. Isto é o aparente. Entretanto, qual seria o ‘encoberto’, ou latente, que leva uma pessoa a sentir raiva de outra que compra?

Em sua história de vida, Rosa foi continuamente excluída de várias atividades escolares e sociais. Questionava as regras vigentes, desde a forma com que se atribui uma nota no ginásio, até como se vestir para um acontecimento social. Atualmente vive com um homem (Cravo) há dois anos, sem contrato assinado. Umas de suas queixas é a falta de erotismo na relação.

Falando marciano (Berne, 1974), ou seja, lendo o latente de forma intuitiva e criativa, o (a) analista percebe que Rosa manifestou, desde o início, uma postura rebelde. Na primeira infância, até onde se sabe é que se sentia só e sem carinho. Sua relação com o pai era difícil, mas não foi possível obter mais dados sobre isso. Segundo Maslow (1987), Rosa se encontra em busca de segurança, necessidades sentidas pelos adultos durante emergências, e períodos de desorganização na estrutura social (crises monetárias, violência social, etc.). Estas necessidades são sentidas mais freqüentemente por pessoas que, quando crianças, experimentaram insegurança resultante de abandono ou perda de afeto.

Continuando esta reflexão pela análise do roteiro de Rosa (Berne, 1974) há que se esclarecer alguns pontos referentes a esta análise.
Roteiro de Vida ou Script é um conceito da Análise Transacional, método psicodinâmico criado por Eric Berne. Significa que por meio da forma em que a criança se sente perante pais e figuras importantes, adquire uma visão não realista acerca de si mesma. Se isto não for reavaliado no discurso real, a pessoa estará sempre seguindo papéis aprendidos com o objetivo de sanar situações temidas. Para justificar seu estilo de vida ‘mágico’, a pessoa utiliza suas defesas (Klein, 1975). O script individual sofre influências histórico – culturais, e familiares.
Uma mulher com roteiro psicológico de Chapeuzinho Vermelho, evita homens protetores (como o lenhador da história), buscando homens interessantes (Lobo Mau), ou sejam, aqueles que trazem agonia e êxtase.
Seguindo este raciocínio, muitas mulheres encontram bons companheiros, e pela aprendizagem da baixa auto-estima, atuam no relacionamento de forma a convidar o homem a se tornar um ‘parceiro’ de roteiro, ou seja, a exercer papéis complementares (Caracushansky, 1982), comprovando situações temidas pela mulher, fantasias que vivencia ao longo de seu crescimento (a confirmação de que é má, de que não nasceu para viver junto com o(a) parceiro(a), que não é interessante, etc).
O homem também, ao colocar seu roteiro em curso, mesmo se casando com uma princesa pode enviar mensagens subliminares de forma a convidá-la a ser uma ‘madrasta de Branca de Neve’, um outro exemplo de confirmação de roteiro.
Isto leva a expectativas frustradas por parte da mulher e do homem.

Mudar o roteiro é possível desde que a mulher rejeite o papel cultural a ela imposto. Na maioria dos casos a mulher não tem consciência do quanto é forte o condicionamento cultural, acreditando-se muitas vezes com ‘má sorte’, culpando parceiros, exagerando a parte psicológica.

Duas pessoas que vivem juntas têm a mesma responsabilidade no estabelecimento da relação. Então imagine se Rosa e Cravo têm roteiros complementares. Rosa, querendo resolver uma situação de abandono, e Cravo, querendo vingar-se (não conscientemente) dos maus tratos em infância. Rosa projeta em Cravo a expectativa do abandono, e Cravo projeta em Rosa a figura de uma mulher raivosa e infeliz. Ambos não se sentem inseguros um em relação ao outro, têm dificuldades em confiar, suspeitam de não serem amados, e tudo o mais que estas fantasias infantis trazem. Se alguma expectativa catastrófica importante é confirmada, como a entrada de outra pessoa na relação (pode ser até a sogra), ambos os parceiros se sentem ressentidos e abandonados.

A história cultural de submissão feminina, a expectativa de que a mulher seja (como tem sido através dos séculos) a ‘cuidadora, a santa, a tarefeira’, faz com que na maior parte das vezes ela se sinta humilhada.

Segundo o exemplo do casal, se Rosa superprotege o marido, o faz em virtude das manipulações de que é vítima, das exigências sociais introjetadas, e por medo de perdê-lo. Cravo também é vítima de uma história cultural que o coloca como superpessoa, dono da verdade, e sem poder expressar seus sentimentos ( para ele – sinônimo de debilidade), entre outras características de gênero. Além disto tem seus receios e fantasias infantis introjetadas. Ao ver a esposa como sua mãe, tem dificuldades em tratá-la como fêmea, auxiliando na falta de erotismo da relação. Não expressa suas dificuldades perante a necessidade de maior sensualidade da mulher e os sentimentos de menos valia que isto lhe acarreta. Teme tanto a crítica da esposa–mãe, quanto a crítica social introjetada.

Parece claro que as velhas questões de moral merecem ser questionadas em favor da auto-estima, visto que a mesma exige um posicionamento de confronto consigo mesmo, do que se busca e do que é ensinado.

Considera-se pertinente refletir se estará a psicologia pronta para lidar também com a configuração histórica à qual a configuração psíquica se remete.
Segundo Lima, (2000), a leitura psicológica da questão de gênero é nova e pouco consultada por psicólogos, e interfere em todas as áreas em que a psicologia atua, visto que é uma questão histórica, cultural, social e política.
Segundo Boyd (1996), a ciência deve ser questionada quando o momento assim o exige, visto que a ciência foi criada pelo homem e portanto ao ser humano se deve remeter.
No momento em que o psicólogo, cujo compromisso é com a qualidade de vida dos ser humano, se defronta com danos causados por uma sociedade regredida no assunto do valor do cidadão, deve proceder ao seu trabalho de agente transformador, com consciência, ética e eficiência.
Novas formas de relações afetivas estão se formando, a maioria quebrando valores e trazendo novos ganhos e novos enfrentamentos. O grupo social mais conservador aceita aos ‘trancos e barrancos’ esta mudança, não sem culpar os novos paradigmas de pensamento. Nossas crianças ainda são criadas para a orientação heterossexual. Aquelas que sentem dentro de si uma orientação diferente deixam os pais e seu círculo mais chegado atônitos, por não saberem o que fazer. Buscam mudar os(as) filhos(as) como se fosse uma questão de aprendizagem. Poucos, mais sábios e confiantes, deixam que a criança cresça do seu jeito, acreditando que a livre opção deve ser incentivada, em todos os campos.
Isto reflete uma possibilidade de evolução social, sugerindo que somente através da verdade interna de cada um, e do diálogo psicologia – sociedade, poderemos efetivamente auxiliar neste momento transformador.

BIBLIOGRAFIA

BERNE, E., Qué dice usted después de decir ‘hola’?, La Psicologia del Destino Humano,

B. Ayres, Ediciones Grijalbo, 5ª, 1974.

BOYD, C., Ciência e Análise Transacional, In Revista Brasileira de Análise

Transacional, REBAT, editora da UNAT, ano VI, nº 1, ISSN: 1517-8668, 1996,

CARACUSHANSKY, S., Mitanálise, 1982, mimeo.

FLAX, J., Psicoanálisis y Feminismo, Pensamientos Fragmentários, Madrid, Ediciones

Cátedra.,1995.

HOLANDA, H. (Org.), Y Nosotras Latinoamericanas? Estudos Sobre Gênero e Raça,

São Paulo, Fund. Memorial da América Latina, 1992.

KLEIN, M., RIVIERE, J. Amor, Ódio e Reparação, São Paulo, Imago, 1975.

LIMA, N. Experiências de um Grupo de Mulheres na Luta pela Cidadania, dissertação, PUC-Campinas,

2000. Orient. Prof. Regina M.L.L.Carvalho. Resumo disponível em arquivo, nesta revista.

______Women Rights: Berne’s Groups Dynamic [trabalho apresentado. In: ITAA August Conference, San Francisco, 1999]. Programa Disponível on line [http://www.itaa-net.org]
MASLOW, A ., FRAGER, R., FADIMAN, J., Motivation and Personality, Addison – Wesley Pub Co; London, 1987, 3ª ed.

Noeliza Lima é psicóloga, CRP 6/505, Mestre em Psicologia Clínica (PUCCAMP). Didata em Análise Transacional. Facilitadora de grupos em Auto-estima, Gênero, Motivação e Desenvolvimento de talentos. Professora Universitária.
https://andaluzia.wordpress.com

Publicado originalmente na
Edição 7 – Janeiro 2003

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O QUE É SER HOMEM?

novembro 9, 2008

industria

por MARIANEZ FRADA*


“Endireite-se e fale como homem. Enfrente isto como homem. Mandaram-me um menino para fazer um trabalho de homem. Serei homem bastante para executar o trabalho? Sou homem bastante para ela? Se me sentisse mais homem…”

Frases como estas que dignificam um gênero em oposição ao outro são muito comuns em todas as culturas falocêntricas como a nossa. Se acrescentássemos à lista “Para de agir como menina. Não seja mulherzinha. Por que não pode agir como um homem de verdade” o quadro ficaria bem mais claro no sentido de idealização de um sexo às expensas de outro. Estou propondo a questão do que é Ser Homem na sociedade contemporânea.Num romance de Norman Mailer: “Os machões não dançam”*, o protagonista vê em seu próprio pai um macho mítico = o mais durão, o mais malandro e o mais auto suficiente. Muitos concordarão com este protótipo de virilidade, outros , entretanto, poderão notar que ele nunca beija mulheres, inclusive as que ama ou com quem faz amor. Esta evitação é inteiramente coerente com o elemento de moral contrafóbico de masculinidade heróica que é exaltado no livro.
Muitos homens hoje, afirma o poeta Robert Bly (1982) influenciados pelos movimentos feministas, cultivam aspectos mais sensíveis, ternos e reflexivos de si próprios:alteraram suas opiniões sobre trabalho, competição, agressão, sentimentos, papéis sexuais, paternidade e maternidade, e o relacionamento deles com ambos os sexos. E muitos ficaram sendo homens melhores por causa disso. Mas o poeta acima vê faltar algo nesses machos modelos melhorados. Muitos desses homens diz ele, perderam o contato com um aspecto essencial de sua natureza mais profunda, com um “selvagem” mítico, ou seja, uma quintessência peluda e arquetípica de algo que difinitivamente não é o que a maioria de nossas avós imaginaria ser um bom rapaz. Argumenta Bly que esta feroz, terrível e atemorizante essência primeva da masculinidade tem de ser enfrentada, trabalhada e integrada para que um homem se realize totalmente.(Bly, R. 1982, “What men really want”)

Referência:

Norman Mailer: Os machões não dançam (tradução em Português), 1984, Nova York, Ramdon House

* A autora é baiana, escritora e pesquisadora em questões de gênero e psicologia.  Colaboradora deste blog.

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